agosto · 2026

"Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévsky

14 de agosto de 2026

Lido em: Junho de 2026

Porque o escolhi: Este ano decidi começar a ler os grandes clássicos. Durante muitos anos adiei estas leituras porque as imaginava difíceis e demasiado exigentes. Seguindo as recomendações de Michelly Santos, decidi avançar.

O que esperava encontrar: um romance importante mas difícil.

O que encontrei: uma exploração profunda da consciência humana.

Antes de começar

Durante muito tempo, o “Crime e Castigo” foi um daqueles livros que parecia pertencer a outra categoria. Não era um livro que se escolhe numa livraria para ler num fim de semana. Era um clássico russo (não o meu primeiro, já li o “Pais e Filhos” de Ivan Turguêniev), enorme, rodeado de uma certa aura de respeito e até de intimidação, muito culpa do nome do seu autor.

Decidi seguir um cronograma de leitura de 2 capítulos por dia, o que permitiria terminar cerca de um mês e meio depois. Não segui à risca este cronograma mas li diariamente, umas vezes apenas um capítulo, outras vezes dois ou três. Consegui terminar com entusiasmo.

Durante a leitura

As primeiras dezenas de páginas exigiram alguma adaptação. Os nomes russos (uma das minhas principais dificuldades), o ambiente pesado de São Petersburgo e o ritmo muito diferente daquele a que estou habituada, obrigaram-me a ler mais devagar. A leitura diária foi um fator muito importante porque neste tipo de textos o mais importante é a consistência e não a velocidade de leitura. Ao longo do tempo deixei de pensar que estava a ler um clássico russo.

Passei simplesmente a acompanhar a história de uma pessoa profundamente dividida consigo própria. O autor demonstrou parecer conhecer demasiado bem certas zonas da mente humana (conhecendo a vida de Dostoiévski entendemos o porquê).

O livro

De um modo superficial, “Crime e Castigo” narra a história de Rodion Raskólnikov, um jovem estudante que acredita que algumas pessoas extraordinárias têm o direito de ultrapassar os limites da moral se o objetivo final for servir um bem maior. O verdadeiro romance começa depois do crime.

O autor pretende explorar o que acontece no interior de alguém que se tenta convencer de que a consciência pode ser vencida pela razão.

As personagens que ficaram comigo

Raskólnikov foi a personagem que mais me impressionou pela sua profundidade psicológica. Em muitos momentos e ao longo de toda a história consegue fazer-nos sentir compreensão, rejeição, impaciência e compaixão.

Sónia foi a personagem que mais admirei pela sua visão do mundo, visão esta que nunca tenta impor. A sua força manifesta-se na capacidade de permanecer ao lado de alguém quando o mais fácil seria fazer o contrário.

Razumíkhin trouxe algum equilíbrio ao romance. A sua generosidade, o sentido prático e a amizade lembram-nos que nem todas as respostas precisam de nascer de grandes teorias.

Svidrigáilov deixou-me profundamente desconfortável. É talvez a personagem mais inquietante do livro mostrando naquilo que uma pessoa se pode transformar quando deixa de reconhecer qualquer limite moral.

As ideias que sublinhei

Este livro deixou-me algumas perguntas:

Será possível justificar racionalmente qualquer ação?

Existem pessoas acima das regras morais?

Até que ponto o sofrimento pode transformar uma pessoa?

A consciência pode realmente ser silenciada?

Dostoiévski parece sugerir algo muito simples. Podemos enganar os outros durante muito tempo, mas viver permanentemente em conflito connosco próprios tem um preço demasiado elevado.

O que esta leitura mudou em mim

Vivemos numa época em que valorizamos muito a inteligência, a eficiência e a capacidade de argumentar. Este texto lembra-nos que existe uma dimensão da vida que não pode ser resolvida apenas através da lógica.

Também me fez pensar na facilidade com que justificamos pequenas decisões do quotidiano. Talvez a diferença entre estas situações e o drama de Raskólnikov seja apenas uma questão de escala.

Quando iniciei a leitura deste livro, queria perceber porque continua a ser considerado um dos maiores romances de sempre. Quando o terminei a resposta foi evidente. Dostoiévski não escreveu sobre um crime extraordinário. Escreveu sobre um conflito que todos conhecemos em maior ou menor grau. Todos tentamos justificar decisões, todos construímos narrativas sobre quem somos e todos, mais cedo ou mais tarde, somos obrigados a ficar sós com a nossa consciência.